Do chá ao chope: a República que o Rio serviu nos bares

Do chá ao chope: a República que o Rio serviu nos bares

O Rio virou arquivo político de bar: de Getúlio com chá e torradas no Lamas a Itamar com chope, a cidade guardou uma República que se discutia entre copos, pratos e balcões. No caminho, presidentes, ex-presidentes e ministros passaram por mesas que misturavam poder, comida boa e muita conversa sobre o Brasil.

Quando a política cabia no prato

Entre os casos lembrados, FHC aparece ligado ao picadinho de Roberta Sudbrack, servido no Alvorada com arroz, banana à milanesa e farofa de cenoura. O detalhe curioso era a restrição do próprio palácio, que tirava o ovo do prato por causa do controle calórico.

Há também a história do Manoel & Juaquim, que em seus tempos mais badalados teria servido uma versão de Lula à Fernando Henrique, à dorê. A travessia do nome para o cardápio virou metáfora pronta demais para o Brasil: a conciliação entre PT e PSDB coube numa travessa, com direito a pausa para mastigar.

Do Catete à Central, a mesa seguia aberta

JK é citado como fã do frango ao molho pardo do Maria das Tranças, em Belo Horizonte, e também como freguês do Angu do Gomes, no Rio, quando o endereço ainda era de carrocinha. A capital foi para Brasília, mas os bares cariocas continuaram lotados de gente opinándo sobre o rumo do país, como se a conta pudesse ser discutida junto com a Fazenda.

Em outra ponta dessa memória, o Sentaí, o Rei da Lagosta, perto da Central, recebeu Costa e Silva, Médici e Figueiredo. Já em tempos mais recentes, FHC também apareceu em foto comendo no salão de uma casa que acabou fechando na pandemia. A imagem ficou; o balcão, não.

Getúlio, Oswaldo Aranha e o jeito carioca de eternizar líderes

Segundo a tradição do Lamas, Getúlio Vargas passava por lá para tomar chá com torradas antes de seguir para o Catete. Já o filé à Oswaldo Aranha ganhou fama no Cosmopolita, embora a própria família do ex-ministro tenha contestado a história do alho em torno do prato. É assim que o Rio trabalha sua memória política: transforma governo em receita, e receita em lembrança de mesa.

No fim, o que sobra dessa República de bar é um retrato muito carioca do poder: a cidade deixou de ser capital federal, mas continua servindo de cenário para presidentes, aliados e adversários que, em algum momento, acabaram sentados diante do mesmo cardápio.

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